Crítica: Frankenweenie


Existem dois Tim Burton competindo na animação Frankenweenie para impor a sua própria visão mais infantil da história clássica Frankenstein, escrita por Mary Shelley: de um lado, o esquisito, mas sensível jovem cineasta que maravilhou o mundo com o seu encantador cinema gótico; do outro, um diretor bem estabelecido, com uma legião de fãs fiéis e cujas críticas divididas e a recepção morna de seus trabalhos recentes o tornaram bastante indulgente para se autoproclamar visionário e incompreendido. Duas personalidades inconciliáveis em um mesmo autor que terminaria entregando um produto irregular, um amálgama de emoção genuína e rancor que diminui aquele que é o charme da animação: a simplicidade e universalidade de sua mensagem.

Refilmagem do bom curta-metragem dirigido por Burton em 1984, o roteiro escrito por John August já sofre com a obrigação de costurar novos elementos a uma história linear e que já havia sido muito bem contada anteriormente com um terço da duração. Trata-se da história de amizade entre Victor Frankenstein, um brilhante e precoce cientista, mas desprezado no colégio, e o seu fiel cachorrinho Sparky, que certo dia morre atropelado. Lidando com a angústia da perda e inspirado pelas aulas de ciências, Victor descobre uma maneira de reanimar cadáveres e decide utilizá-la para devolver a vida a Sparky, ingenuamente acreditando que conseguiria escondê-lo dos olhos curiosos. Até que estudantes do seu colégio, movidos pela proximidade da feira de ciências, obriga o garoto a revelar o seu experimento provocando resultados desastrosos para a cidade inteira.

Funcionando sempre que investe no aspecto emocional – o que é uma surpresa diante da frieza que Burton tem demonstrado nos seus últimos filmes -, a narrativa consegue convencer da existência de um amor tão forte entre Victor e Sparky capaz de superar inclusive as barreiras da morte. Sem pesar a mão no sentimentalismo, o diretor faz com que a aproximação de Sparky e a poodle do vizinho funcione singela e discretamente e até a incompreensível rejeição que o cachorro sente de si mesmo ao ver seu reflexo no espelho funciona dentro do contexto da narrativa. Assim, nem as pieguices exageradas, como o discurso do professor afirmando que a ciência está tanto no cérebro quanto no coração, chegam a incomodar diante de sua escassez e da força da história central.

Entretanto, logo no instante em que fisga o público, Burton passa a introduzir referências excessivas e pouco orgânicas à narrativa. Se não incomodam o nome Shelley gravado numa lápide, a vizinha do protagonista cujo sobrenome é Van Helsing ou ainda a mecha branca em forma de relâmpago que remete à Noiva de Frankenstein, o cineasta é autoindulgente ao homenagear os seus próprios filmes, como na escultura feita nos arbustos de Edward Mãos-de-Tesoura e a pipa semelhante ao bat-sinal de Batman. Ele também compromete o desenvolvimento do protagonista, assumidamente seu alter-ego, ao utilizá-lo para rebater críticas a seu trabalho, obrigando sua mãe a condescendentemente afirmar que “ele está sozinho no seu próprio mundo” ou introduzindo uma mensagem sobre ciência e genialidade que o coloca acima da nata dos diretores… ao mesmo na sua humilde opinião.

Perdendo completamente o controle no terceiro ato quando inexplicavelmente um mesmo experimento produz resultados diversos – e não cola a explicação do professor acerca de variáveis – só para homenagear o máximo de monstros clássicos do cinema quanto é possível (Godzilla, Gremlins, Drácula e Lobisomem), Frankenweenie ainda assim é o melhor trabalho de Tim Burton nos últimos anos, sobretudo quando revisita o seu lado mais sensível da juventude que reconhecia no estilo gótico uma ferramenta para contar boas história. E não o contrário.

(3/5)

Frankenweenie (Idem)
Estados Unidos, 2012 – 87 min.
Direção: Tim Burton. | Roteiro: John August.
Vozes de: Charlie Tahan, Catherine O’Hara, Martin Short, Martin Landau, Winona Ryder.