Crítica: Argo


Há cerca de oito anos, Ben Affleck viveu a pior fase de sua carreira, quando estrelou produções de gosto duvidoso como Contato de Risco e Sobrevivendo ao Natal. A carreira do jovem talentoso premiado com o Oscar de Melhor Roteiro em 1998 – ao lado de Matt Damon – por Gênio Indomável parecia ter chegado ao fundo do poço. Felizmente, Affleck deu a volta por cima, ou melhor, por trás (das câmeras), ao dirigir Medo da Verdade em 2007, e Atração Perigosa em 2010. Com Argo, prova que amadureceu bastante ao longo deste percurso ao entregar seu melhor filme até o momento.

Ambientado em 1979, durante a crise política-religiosa iraniana, o filme mostra o empenho do governo dos EUA para resgatar seis dos seus diplomatas do Irã, depois que grupos revolucionários tomaram conta das ruas da capital Teerã e invadiram a embaixada norte-americana. Na ocasião, seguidores do aiatolá Khomeini mantiveram cativos, por 444 dias, 52 americanos que estavam na embaixada do país. O caso ficou conhecido como “Crise dos reféns” (1979-1981).

No início da película, uma narrativa em quadrinhos explica tim-tim por tim-tim a conjuntura política da época e porque os americanos foram presos: os Estados Unidos haviam ajudado o xá Mohammad Pahlavi chegar ao poder – a partir de interesses econômicos – e quando ele foi deposto em 1979 por Khomeini, a Casa Branca lhe ofereceu asilo político. O ato enfureceu a população local, que enxergava no antigo governante um criminoso a ser julgado.

Para ajudar os seis diplomatas – refugiados na embaixada canadense – a escapar da fúria iraniana e fugir do país, entra em cena Tony Mendez (Affleck), especialista em extrações da CIA, com um plano mirabolante: Mendez viajaria até o Irã fingindo ser o responsável por uma falsa produção sci-fi de Hollywood e convenceria a Secretaria de Estado que o exótico país seria a locação perfeita para o filme Argo – uma cópia descarada de Star Wars. A intenção era colocar os reféns como membros da equipe de filmagens e sair de lá sem que eles fossem notados. Mas o plano ganha contornos dramáticos quando as coisas não saem como planejadas.

Os eventos que levaram a este resgate “cinematográfico” foram mantidos em segredo durante muitos anos e só a partir de 1997, no segundo mandato de Clinton se tornaram públicos – dez anos depois, o jornalista Joshuah Bearman publicou o fato na revista Wired. Aliás, a fita faz questão de lembrar o espectador deste “detalhe” a todo instante, combinando imagens reais com encenações, numa edição primorosa e fotografia idem.

Argo é um longa intenso e instigante, um Missão Impossível da vida real que prende à atenção do início ao fim. Apesar da seriedade da história, cheia de ação e suspense, o filme oferece também momentos hilariantes – proporcionados pelos coadjuvantes John Goodman e Alan Arkin nos papeis de colaboradores da CIA – quando utiliza a própria indústria cinematográfica como alvo de suas piadas. Certamente estará entre os principais indicados ao Oscar 2013, seja por sua qualidade técnica como um todo e/ou por contar uma história repleta de patriotismo bem do jeitinho que a Academia adora premiar.

(4/5)
Argo (Idem)
Estados Unidos, 2012 – 120 min.
Direção: Ben Affleck. | Roteiro: Christ Terrio.
Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin, Victor Garber, Clea Duvall.

  • Alex Sandro Alves

    Oi Getro! Argo é bom mesmo! E tecnicamente é perfeito! Mas só não concordo com a possibilidade de uma indicação a Alan Arkin como coadjuvante como muito se ventila por aí. Argo não chama atenção por suas interpretações (todas corretas) e sim pela força de sua história. Abs!