Crítica: Hotel Transilvânia

Para cumprir a promessa feita à esposa antes dela morrer, o conde Drácula dedicou-se a construir um santuário que garantisse a segurança de sua filha recém-nascida Mavis da ameaça da civilização, um lugar isolado e escondido bem além de uma floresta assombrada e de um cemitério de mortos-vivos. Este local viria a se tornar refúgio de outros monstros e criaturas fantásticas cansados da incessante perseguição humana, como o Frankenstein e o Lobisomem, e ser convenientemente batizado de Hotel Transilvânia. Durante cerca de 118 anos, ele tem cumprido totalmente o seu propósito até o fatídico dia, nas vésperas do aniversário da sua filha, em que recebe a visita inesperada de um viajante. Essa enxuta e até original sinopse renderia uma boa animação de terror (ao estilo do ótimo ParaNorman) caso não houvesse a participação de um dos sujeitos da indústria cinematográfica que menos se interessa com a qualidade de uma história: Adam Sandler, não só o dublador do protagonista na versão original como também um dos produtores da animação, embora o nome de sua empresa Happy Madison, responsável pela atrocidade Cada um tem a Gêmea que Merece, não surja nos créditos iniciais.

Usando o monstruoso pano de fundo como desculpa para uma historinha convencional sobre o protecionismo excessivo dos pais e a emancipação dos filhos e, nos piores momentos, para despejar humor de gosto duvidoso e intervenções pouco inspiradas, o roteiro sequer compreende as boas possibilidades sugeridas pela premissa e se limita a explorar – estou sendo generoso – o batido conceito de criaturas fantásticas comportando-se ordinariamente igual ao vizinho ao lado e vivenciado dramas rotineiros. Sem estas, a animação não funcionaria de jeito nenhum, mostrando-se pontualmente divertida na revelação de que o Frankenstein viaja aos pedaços pelos correios (embora permaneça um mistério como ele e a sua noiva, após desmontados, consigam lacrar e despachar a encomenda), da obesidade da Múmia e da numerosa família (err, matilha) de um estressado e curvado Lobisomem, inspirado no Michael Douglas de Um Dia de Fúria.

Ao invés de se preocupar em desenvolver as interações e soluções de maneira coerente com a natureza inusitada das criaturas retratadas, a narrativa preocupa-se exclusivamente com a fisionomia e peculiaridade de cada uma (o que faz de forma aceitável), permitindo que o esquematismo e o clichê assumam controle do que parecia ser uma ideia promissora. O filme repete, assim, o que Adam Sandler tem feito (ou melhor, cometido) ao longo de sua extensa carreira: pegar um trapo de história e troçar personagens diferentes do padrão médio a partir das grosserias e babaquices habituais, amenizadas nesta animação por ser um produto obviamente voltado ao público infantil.

Felizmente, assina a direção o estreante Genndy Tartakovsky (criador das boas animação A Vaca e o Frango, O Laboratório de Dexter e Samurai Jack), que com alguma liberdade, investe em um humor mais ácido e escatológico em certos momentos, como ao ilustrar o destino de uma dúzia de ovelhas e a inevitável mas eficiente piada envolvendo Crepúsculo. A narrativa também acerta nas gags visuais como a sauna do hotel aquecida pelo bafo de um dragão, o café da manhã servido a noite, bruxas camareiras e mortos-vivos desempenhando serviços gerais. Mas Tartakovsky é menos feliz no comando das frenéticas sequências de ação que não justificam o preço mais caro do 3D.

Pavorosamente mal dublado na versão nacional, que inclui um operário nordestino e um Lobisomem paulistano disparando regionalismos a torto e a direito, Hotel Transilvânia é uma aventura tola e inofensiva, longe do baixo nível das produções da produtora Happy Madison, mas carente de boas ideias.

(3/5)
Hotel Transilvânia (Transylvania Hotel)
Estados Unidos, 2012 – 91 min.
Direção: Genndy Tartakovsky. | Roteiro: Peter Baynham e Robert Smigel.
Vozes de: Adam Sandler, Kevin James, Andy Samberg, Selena Gomez, Steve Buscemi, Jon Lovitz.