Crítica: À Beira do Caminho


Deveria existir um verbete no dicionário só para traduzir a solidão dos caminhoneiros durante suas viagens nas desertas e escuras estradas brasileiras. Na companhia do ronco do motor, músicas no rádio e superstições, e com restrito contato humano, a cabine torna-se o único lar para alguns homens fugindo do passado. Este é o caso de João, personagem de João Miguel no ótimo À Beira do Caminho. Misantropo, de palavras contadas, olhar pesaroso e um enorme peso carregado nas costas, João não se esforça em ser agradável nem com o estranho que se senta à sua mesa em um restaurante, nem tampouco com Duda, um órfão de mãe que encontra escondido no seu caminhão. A princípio por circunstâncias alheias à sua vontade e depois por compaixão, João promete levar Duda a São Paulo onde o garoto sonha reencontrar o pai que o abandonou antes de ter nascido. Mas no trajeto, o motorista defronta-se com memórias amargas na tentativa de se reconciliar com o passado.

Introduzindo flashbacks pontuais de uma juventude cálida ressaltada nos tons amenos da fotografia de Lula Carvalho, o diretor Breno Silveira (do também ótimo 2 Filhos de Francisco) revela o passado do seu protagonista sem recorrer à exposição exagerada. Ao invés disso, somos visitados por doces lembranças de dois amores do passado, Rosa (Dira Paes) e Helena (Ludmilla Rosa), e as circunstâncias que levaram um jovem bonachão, quase um sósia do rei Roberto Carlos, a se transformar em um homem amargurado cuja melancolia protrai-se ao longo de sua contemplativa jornada. Mais do que investigar quem é João, Silveira também utiliza as idas ao passado para explorar o contraste com o presente e discutir o peso de nossas ações e as suas consequências.

Enquanto isso, a presença de Duda inadvertidamente relembra João do maior erro do seu passado, mas a energia contagiante e os sentimentos sinceros do garoto enfim o levam a sorrir discretamente e preencher, aos poucos, o vazio da sua existência. Por sua vez, João substitui, ao menos temporariamente, a figura paterna buscada por Duda, e Breno Silveira é inteligente em registrar a aproximação gradual dos dois. Isto é acentuado nas ótimas atuações centrais, de um lado o extraordinário João Miguel e a sua capacidade de evocar diversos sentimentos em único olhar marejado, e do outro, o jovem Vinícius Nascimento que conquista com a sua esperança e inocência, além de conferir autenticidade a momentos simples como nos mais agudos.

Imersos em uma triste nostalgia, a narrativa inspirada nas canções de Roberto Carlos é também pontuada com rara felicidade pelas músicas do Rei. Organicamente introduzidas seja no CD que toca no rádio, seja na trilha incidental, clássicos como “A distância”, “Como vai você”, “Outra vez” e “Eu voltei” desempenham papéis-chave em pontuar o estado de espírito de algum personagem. Assim, enquanto escutamos os versos de “Esqueça”, durante a linda cena ao redor de uma fogueira, vislumbramos que Rosa consegue finalmente desvincilhar-se da sua prisão emocional; por outro lado, quando Duda começa a cantarolar “Amigo” e João o corrige, uma semente de afeição é plantada.

Contudo, mesmo preenchido pelo espírito de Roberto Carlos, o diretor evita o pieguismo de suas melodias na maior parte do tempo e constrói uma narrativa minimalista que é tão áspera quanto é emocionante. Silveira derrapa apenas nos dispensáveis momentos de humor, o surgimento de um personagem no terceiro ato e o desfecho otimista. Mas esta não é uma questão de insensibilidade, pois mentiria se dissesse que não me emocionei. Após percorrer quilômetros de chão com João e Duda, esperava que o ponto final de À Beira do Caminho não se satisfizesse com soluções fáceis. Até chegarmos no destino, porém, nosso coração já fora conquistado por estes dois viajantes aflitos porém esperançosos.

(4/5)
À Beira do Caminho
Brasil, 2012. – 104 min.
Direção: Breno Silveira. | Roteiro: Patrícia Andrade.
Elenco: João Miguel, Vinícius Nascimento, Dira Paes, Denise Weinberg, Ângelo Antônio.