Crítica: Valente


Após quase duas décadas assistindo às animações da Pixar, muitas delas irretocáveis e apaixonantes obras-primas, redescobrindo sorrisos ingênuos de criança ou chorando copiosamente para embaraçoso de quem estivesse comigo, eu fiquei mal acostumado com o perfeccionismo e exuberância artística de um estúdio aparentemente blindado a erros. Eis que, no ano passado, o mito derrapou com o decepcionante Carros 2, à época, a exceção que confirmava a regra, ou ao menos até eu conferir a primeira animação da Pixar estrelada por uma princesa. Não que Valente seja ruim, mas é somente medíocre, incapaz de reproduzir a excelência que magos como Brad Bird, Andrew Stanton e John Lasseter costumeiramente brindavam o mais exigente espectador. É a Pixar sendo apenas a Disney dos últimos anos, em um produto agradável e inofensivo, porém requentado e esquecível.

Escrito a oito mãos, o roteiro apresenta a espirituosa e jovial princesa Merida, a exímia arqueira de cachos ruivos e rebeldes filha do rei Fergus e da amável e controladora Elinor, cujo maior sonho é ver a filha se tornar uma dama. Para isso, ela leciona diariamente aulas de bons modos e etiqueta, sempre acompanhadas do mantra de que “uma princesa nunca deve…”, na esperança de que Merida venha a abandonar as armas e finalmente desposar um príncipe. Certo dia, depois de contrariar a mãe e fugir da cerimônia de escolha do seu noivo, a jovem encontra uma bruxa na floresta que lhe prepara uma poção mágica capaz de alterar o seu destino; o seu uso, porém, acaba por ameaçar a paz entre os clãs, obrigando mãe e filha a se unir em uma jornada para desfazer o mal provocado.

Reencenando elementos batidos de filmes de princesa, a narrativa apresenta a sua bruxa nariguda e de queixo pontiagudo (uma personagem descartável que some desavisadamente) e uma breve estada enclausurada na torre do castelo. E, embora se mantenha inabalável no foco feminista evitando a presença do príncipe encantado para salvar o dia, Valente não consegue fugir do lugar-comum. A narrativa não comove (como Up – Altas Aventuras), não empolga (como Os Incríveis) e não provoca aflição pela segurança dos personagens (como Toy Story 3), tudo é muito ordinário e modesto, dois adjetivos que até então não imaginaria estarem associados a Pixar. Nem mesmo a habilidade de Merida no arco e flecha serve alguma propósito finalístico na narrativa.

Muito disso se deve à desajeitada estrutura da narrativa que se estende demasiadamente no longuíssimo primeiro ato (o trailer com fermento), em detrimento do desenvolvimento harmônico da ação e do clímax. Contudo, o maior problema de Valente está no inadequado desenvolvimento do relacionamento mãe e filha: visivelmente carinhosa, Elinor é uma rainha que deseja unicamente o bem da filha e, a seu ver, isto passa por uma visão tradicionalista e retrógrada do que é ser uma princesa; enquanto isso, Merida é teimosa, valoriza a sua independência e buscar seguir seu próprio destino e não o que sua mãe anseia, como toda boa adolescente. Elas se amam, disto não há dúvida, mas não falam a mesma língua (vide a eficiente montagem aproximando as duas enquanto conversavam sozinhas) e acabarão se magoando; é um retrato contemporâneo em uma embalagem de época e, nas circunstâncias postas pela narrativa, a reconciliação vem fácil demais.

Mesmo assim, o empenho técnico do estúdio quase cega em face dos tropeços narrativos: a inflexão facial de Merida durante o pedido de desculpas transmite uma tristeza assustadoramente mais real do que muitas atrizes de carne-e-osso conseguiriam evocar; a atenção aos detalhes (a mecha grisalha de Elinor e seus discretos fios brancos) e a textura dos objetos (as obras de carpintaria da bruxa) também impressionam. E se uma imponente queda d’água ou a elasticidade de uma flecha disparada em câmera lenta renderiam à equipe de animação todos os prêmios do ano, o que dizer dos desgrenhados cabelos da princesa cujos fios parecem independentes uns dos outros?

Engraçadinho (o humor exige muitos alívios cômicos, mas funciona) e divertido, Valente nunca atinge o patamar de excelência e ousadia dos demais filmes da Pixar. Sinal, talvez, de que devamos encarar a triste realidade de que o estúdio tem se nivelado por baixo e deixado de ser aquele que me conquistara com a trilogia Toy Story, Wall-E ou Ratatouille. Espero, como amante do cinema que Universidade Monstros faça-me morder a língua.

(3/5)
Valente (Brave)
Estados Unidos, 2012 – 93 min.
Direção: Mark Andrews, Steve Purcell e Brenda Chapman.
Roteiro: Irene Mecchi, Mark Andrews, Steve Purcell e Brenda Chapman.
Vozes de: Kelly Macdonald, Billy Connolly, Emma Thompson, Julie Walters, Robbie Coltrane.

  • Rogério

    Perfeito comentário. Parabéns!

  • Jefferson

    Adorei a crítica