Crítica: Para Roma Com Amor


Uma coisa que aprendi durante todos estes anos é de jamais subestimar o trabalho de um gênio. Mesmo se revelando inconstante nos últimos anos e municiando os detratores com obras bastante inferiores aos seus melhores trabalhos, Woody Allen sempre deu provas irrefutáveis de sua genialidade e, ao longo de mais de 40 filmes, sedimentou um estilo de produção com a invejável média de um novo longa lançado anualmente. Excursionando no velho continente, o cineasta enfim aterrissa na Itália, palco deste Para Roma, com Amor, um de seus trabalhos mais livres e descompromissados e que ao lado de Memórias e Desconstruindo Harry, apresenta uma esclarecedora perspectiva sobre a sua carreira, além do retrato caloroso da espontaneidade e paixão tipicamente italianas.

Baseando-se livremente em Decamerão de Giovanni Boccaccio, o roteiro elabora uma antologia de quatro histórias independentes, porém misteriosamente entrecortadas em torno da falibilidade humana e a atraente e sedutora fama. Numa deles, a nova iorquina Hayley (Alison Pill) apaixona-se por Michelangelo (Flavio Parenti) e convida os seus pais burgueses (Allen e Judy Davis) a conhecê-lo e a agitar a vida de uma pacata família esquerdista. Em outra história, Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (Alessandra Mastronardi) são ingênuos provincianos recém-casados que chegam em Roma com a promessa de enriquecer trabalhando com parentes abastados. Por sua vez, John (Alec Baldwin) é um arquiteto bem-sucedido revisitando, literalmente, a sua juventude na figura do idealista Jack (Jesse Eisenberg). E finalmente, Leopoldo (Roberto Benigni) é um agradável e previsível italiano transformado em celebridade instantânea.

Esses segmentos envolvem, sobretudo, o culto à celebridade e o fascínio provocado pela fama no homem médio (e consequentemente, pelo poder). Não haveria autor mais apropriado para propor esta discussão satírica senão Woody. Tendo ojeriza às premiações e ao reducionismo da arte nas revistas de “fofocas”, ele alfineta a imprensa nas perguntas frívolas lançadas ao ordinário Leopoldo (“o que você comeu no café da manhã?” ou “você usa cueca slipper ou boxer?”). Ele também não esquece sermos pessoas escapistas e bitoladas por uma suposta atração ao meio artístico: não a toa, o célebre ator local que motiva o adultério de uma personagem seja gorducho, grosseiro e careca, nada sedutor, ou a apaixonante atriz, insistentemente admirada por uma amiga, revele-se pequenina, insossa e insegura. Mais do que isto, ciente de que aceitaríamos os convites mais esdrúxulos por reconhecimento midiático e popular, ele introduz um personagem que não hesita aparecer nu no chuveiro cantando ópera para centenas de pessoas.

Inebriada de charme, apuro e melancolia, a narrativa contém os elementos característicos da filmografia de seu autor. Mas, mesmo sendo agradável e simpático, Para Roma, com Amor tem a sua parcela de equívocos no formato de múltiplas narrativas que, montadas de forma preguiçosa e desinteressante no pano de fundo romano, acabam denunciando algumas fragilidades. Usando o subtema arquitetônico como desculpa para explorar os pontos turísticos de Roma, Allen está cheio de boas ideias, mas nem todas são satisfatoriamente realizadas como ocorrera ano passado em “Meia-Noite em Paris”.

Com um elenco homogeneamente bom (de onde não é possível pinçar um destaque isolado), a fotografia quente e convidativa de Darius Khondji e a trilha sonora descontraída, Woody Allen se propôs a desvendar as nuances da Itália em histórias cotidianas numa barulhenta, bagunçada e espontânea metrópole. Segundo ele, os nativos do lugar cantam ópera no banho, não sabem fornecer orientações a turistas e resolvem seus problemas regados a vinho e saboreando uma massa. Tudo bem ao estilo do autor, sofisticado, prazeroso e, desta vez, bem italiano.

(4/5)
Para Roma Com Amor (To Rome with Love)
Estados Unidos / Itália / Espanha, 2012 – 102 min.
Direção e Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Penélope Cruz, Alec Baldwin, Jesse Eisenberg, Ellen Page, Roberto Benigni.

  • Glayson

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