Crítica: Solteiros com Filhos


Um dos objetivos dos personagens de Solteiros com Filhos depois do nascimento do primeiro rebento é o de permanecerem legais. Mesmo que este desejo venha de uma brincadeira, a responsabilidade é tão intensa que antes descontraídos e divertidos adultos cedem lugar a criaturas estressadas e exaustas e as (raras) saídas noturnas e programas com os amigos tornam-se tão animadores quanto trocar uma fralda suja no meio da madrugada. Ao menos isto é o que constatam os amigos solteiros nas visitas cada vez mais escassas e turbulentas pois, encarando outro momento na vida, pensam enxergar um panorama amplo onde amor, felicidade e filhos são palavras mutuamente excludentes.

Escrito, dirigido e estrelado por Jennifer Westfeldt, um clone menos avoado da Lisa Kudrow (a Phoebe de Friends), o roteiro segue os melhores-amigos Jason (Adam Scott) e Julie (Westfeldt) que, ao observar o ambiente permanentemente instável na vida familiar dos casais de amigos Ben (Jon Hamm) e Missy (Kristen Wiig) e Leslie (Maya Rudolph) e Alex (Chris O’Dowd), decidem conceber um filho fora do casamento, sem envolvimento amoroso e mantendo intacta a amizade. A ideia, claro, é vista com descrença, zombaria e expectativas forjadas no fracasso, mas eles se mostram bem sucedidos na educação do pequeno e mantêm a chama sexual acesa com outros parceiros (interpretados por Megan Fox e Edward Burns), o que provoca naturalmente inveja e mágoa nos outros casais.

Apesar da divisão de responsabilidades ocorrer a princípio sem prejuízo da amizade, as coisas não saem como planejado e Julie começa a despertar uma afeição não correspondida por Jason, um mulherengo incorrigível, dono de comentários infelizes e infantis sobre flertes e posições sexuais. Aliás, para um cafajeste, Jason mostra-se incapaz de ler nas entrelinhas a vontade da amiga em formar uma família. Tal contexto sugerido e as situações decorrentes não são novos, e é fácil recordar outras comédias românticas ao pensar brevemente na narrativa: Juntos pelo Acaso apresentava uma proposta às avessas; Amizade Colorida e Sexo sem Compromisso, os riscos de embarcar numa amizade com benefícios; e Plano B ou Coincidências do Amor, as intempéries de mães solteiras e respectivos envolvimentos românticos.

Todavia, diferente dos exemplares acima, que variam do descartável ao aceitável, o longa tem uma narrativa madura, livre da maioria dos aborrecidos penduricalhos liberais, e ostentando um charme nas rugas e linhas de expressão de personagens que, na contemporânea Nova York, até agem segundo os modernos preceitos de relacionamentos, mas cultivam os sonhos clássicos de amor e família. A diretora Jennifer Westfeldt também não exagera em artimanhas cômicas e no cinismo sarcástico (oportunidades não faltaram para isto), além de ter a sorte de contar com o espirituoso Adam Scott e suas tiradas inspiradas e uma história atual e verossímil.

Revelando um timing cômico adequado, diferencial de boas comédias de situação, Solteiros com Filhos peca apenas no desfecho tolo, apressado e previsível – aí sim, rebaixando o filme ao nível daqueles citados mais acima -, mas, comprova os talentos múltiplos de Jennifer Westfeldt e seu elenco de confiáveis coadjuvantes egressos de Missão Madrinha de Casamento. Uma opção atraente e agradável para escapar dos blockbusters deste período.

(3/5)
Solteiros Com Filhos (Friends With Kids)
Estados Unidos, 2011 – 107 min.
Direção e Roteiro: Jennifer Westfeldt
Elenco: Adam Scott, Jennifer Westfeldt, Jon Hamm, Kristen Wiig, Maya Rudolph, Megan Fox.

  • yelsewsoares

    Gostei desse filme, ri muito e ate me emocionei