Crítica: E aí… Comeu?


Desvendar a imprevisibilidade sentimental da companheira tem atormentado homens desde a aurora do primeiro dia. Adão que o diga. Na falta de explicações plausíveis, os machos sempre puderam recorrer ao templo das discussões mais frívolas sobre amor e sexo: o boteco. Ao menos é isto que E aí… Comeu? se propõe a discutir, enquanto concomitante expõe às mulheres o teor de conversas regadas a cerveja, tira-gostos e testosterona.

Escrito por Marcelo Rubens Paiva (do ótimo Malu de Bicicleta) e Lusa Silvestre, o roteiro acompanha as desventuras sentimentais de Fernando (Bruno Mazzeo), Honório (Marcos Palmeira) e Fonsinho (Emílio Orciollo Neto) que, à mesa do bar Harmonia (ironia às corriqueiras faíscas dos relacionamentos), reprisam sob a ótica masculina os porquês de suas vidas amorosas estarem um caco. Neste contexto, descobrimos que Honório é pai de duas filhas e casado com Leila (Dira Paes), que ostenta orgulhosamente a bandeira dos direitos iguais nas rotineiras saídas noturnas com as amigas; por sua vez, Fonsinho é um rico playboy e escritor frustrado apaixonado por Alana (Juliana Schalch), uma garota de programa; e Fernando, recém-abandonado pela esposa Vitória (Tainá Müller), é fissurado pela vizinha menor de idade Gabi (Laura Neiva).

Enxergando nas mulheres exímias manipuladoras de sentimentos, o elenco feminino é sacrificado pelo ponto de vista machista e estereotipado daqueles amigos. Leila, Alana, Vitória e Gabi existem sobretudo para infernizar as vidas deles, chantageando-os com promessa de vida mansa, carinho, amor e/ou sexo. Múltiplas funções condicionadas de maneira óbvia conforme a história romântica vivida, sem que elas tenham a chance de se converterem em seres humanos autênticos com dramas e aflições pessoais tão ou mais importantes do que os deles. Mas, este olhar unidimensional é o menor defeito narrativo, pois se origina do imaginário popular de homens inseguros, incapazes de admitir mulheres divertindo-se com suas amigasou a independência sexual e financeira delas.

O jeito brucutu, mas ingênuo masculino também exime a narrativa do preconceito machista, como de que mulheres não sabem dirigir, ou de que precisam de orientações na cama. Assim, o maior problema de E aí… Comeu? é que ele não é nem engraçado ou profundo o suficiente, tornando-se um mero esquete de 100 minutos. Isto se vê na preferência de Felipe Joffily em usar sinônimos escatológicos e frases de efeito para provocar risos pontuais ou em introduzir incidentes apartados (o protagonizado por Katiuscia Canoro), ao invés de desenvolver o humor consistentemente a partir da imaturidade tenra de seus protagonistas.

Na verdade, é Bruno Mazzeo que impede o longa de ser descartável: comediante nato e de timing cômico invejável, o filho de Chico Anysio (homenageado brevemente nos créditos finais) tem um dom natural em provocar riso fácil. Além disso, ele também compõe Fernando como um sujeito melancólico, coerente ao estágio transitório da vida em que se encontra. Por sua vez, Seu Jorge é grata surpresa, interpretando um retrato de si mesmo, e reencenando a figura do garçom Don Juan.

Entretanto, mesmo os esforços de Mazzeo são insuficientes para resgatar uma estrutura narrativa desinteressante e cansativa (os amigos vivem uma situação embaraçosa; discutem-na no bar; encaram outra neura; vão ao bar novamente). Ligeiramente aquém à media de qualidade da recente produção nacional, E aí… Comeu? também não é uma cilada, pontualmente distraí e, bondade minha, decifra a rotina masculina no boteco. Ou não.

(2/5)
E aí… Comeu?
Brasil, 2012 – 100 min.
Direção: Felipe Joffily. | Roteiro: Marcelo Rubens Paiva e Lusa Silvestre.
Elenco: Bruno Mazzeo, Marcos Palmeira, Emílio Orciollo Neto, Seu Jorge, Dira Paes.

  • anabchamploni

    Não pretendo pagar para ver mais essa pérola do cinema brasileiro. Não sei se os filmes do Bruno Mazzeo são engraçados, mas que são idiotas são. Mostrar as mulheres como criaturas desmioladas que vivem em função dos homens, é um humor preguiçoso, machista e estereotipado. O site está sendo muito bonzinho com o Mazzeo, ele realmente deve ser hilário. Quando passar na Globo na sessão da trade, destino certo para películas dessa qualidade, eu vejo.

  • Felipe Faleiro

    Eu particularmente recomendo este filme por 2 motivos. Eu já havia assistido o Cilada.com e particularmente não aprovei por ser uma comédia mais apelativa, ou basicamente no dia em que eu assisti eu não estava no clima. Entretanto este retrata o sexo de uma forma um pouco diferente, e ao meu ver, foi melhorado em relação ao cilada.com, até porque eu gerei uma certa expectativa a respeito do mesmo, pois me baseei no sereado. Mais por fim, eu realmente recomendo assistirem este filme, pois ele é realmente hilário e a meu ver, por mais que seja uma comédia com linguajar também apelativo, não deixa de ser tão forçado quanto o Cilada.com, e para concluir, no dia em que eu assisti, paguei apenas R$ 3,50 para entrar no cinema, algo que ao meu ver é extremamente barato para um filme que até então não apresentava ser lá grande coisa.

  • Fernanda

    Na verdade gostei muito do filme – independnete do valor do cinema. Saí de lá mais leve de tanto ri. Acho que ninguem vai a um filme de comédia esperando grandes contextualizações, vamos sim com o intuito para o qual o filme foi criado: divertir-nos!
    Complementando, os atores estão divinos – Bruno, Dira, Emílio, Marcos (esse então…). O contexto lembra, e muito, a vida real de cada um e melhor, ao final, como mulher, me senti extramamente valorizada, assim como a visão que foi colocada a respeito das relações familiares e sobre o casamento.
    Enfim, talvez não tenha visto o mesmo filme que o crítico ora em questão. Talvez ele não seja casado ou estivesse de mau humor no dia (por nao ter dado umazinha!), mas não deveria ter sido tão severo, aliás, acho que a descrição que fez nem condiz com o filme – talvez nem tenha prestado atenção para nao se desesperar! Mais uma, mais cuidado com o português quando escrever publicamente!!

  • ricardo

    Posso descrever este filme em uma só palavra: PORNOCHANCHADA.