Crítica: Paraísos Artificiais

Paraísos Artificiais chega aos cinemas com uma proposta interessante: dar vida e voz ao grupo de pessoas que gostam de música eletrônica, raves, e tudo mais que esse universo proporciona. Tratando-se de uma realidade pouco conhecida do grande público – e alvo de extenso preconceito –, a idéia de transportá-la para o cinema e apresenta-la a diferentes platéias é algo que merece reconhecimento. Infelizmente, a realização do projeto acaba deixando a desejar, o que faz com que o filme valha mais pela sua intenção do que pelo resultado.

Contando sua história por meio de flashbacks, o diretor Marcos Prado (do premiado “Estamira”) acaba criando uma narrativa confusa, que exagera nas idas e vindas no tempo e peca ao tentar (sem sucesso) criar tensão e emoção em certos momentos. O longa inicia com Nando (Luca Bianchi) saindo da cadeia depois de ficar alguns anos preso. Quando chega em casa, encontra um pacote com diversos comprimidos de ecstasy no quarto do irmão Lipe (César Cardadeiro), e passa a lembrar das circunstâncias que o levaram até a cadeia: alguns anos antes, Nando foi para Amsterdã procurando descolar uma grana extra trabalhando como mula de tráfico. Chegando lá, conheceu Érika (Nathalia Dill), uma DJ brasileira com quem começou um romance.

Até aí tudo bem, o problema é que o diretor resolve inserir outro flashback (dentro do flashback que já estamos assistindo), ao mostrar uma festa que aconteceu em Recife dois anos antes (dos acontecimentos em Amsterdã); festa essa em que os dois personagens participaram antes de se conhecerem formalmente, e que se trata de um artifício narrativo (mal utilizado) para revelar aos poucos alguns dos segredos dos personagens. Além disso, o cineasta ainda quebra completamente a lógica narrativa estabelecida ao inserir a visão de Érika dos acontecimentos (sendo o filme todo uma lembrança de Nando no quarto do irmão, como ele poderia se lembrar de coisas que não viu?), mostrando a ascensão dela como DJ, ao mesmo tempo em que apresenta as primeiras experiências do garoto com o lucrativo negócio de tráfico de drogas.

Intercalando esses dois momentos (Amsterdã e Recife) de maneira a nos fazer conhecer aos poucos as motivações e mistérios dos personagens, o cineasta acaba perdendo a atenção do público em certos momentos, como na mudança física de Lipe – que passa de um garoto franzino para um homem no decorrer da projeção. Não só isso, mas depois de um tempo fica fácil de adivinhar quais segredos os personagens estão escondendo, o que não justifica manter a aura de mistério por tanto tempo.

Ao mesmo tempo em que o roteiro, escrito pelo próprio Prado, em parceria com Pablo Padilha e Cristiano Gualda, peca ao criar diálogos cafonas, (“Eu tenho tudo o que preciso já. O Sol e você” ou “a gente é o que a gente sente”), ele acerta ao não fazer qualquer tipo de julgamento em relação ao estilo de vida levado por aquelas pessoas. De fato, até para quem não pertence a esse mundo, a idéia de auto-conhecimento e liberdade sexual não soam estranhas. E se de vez em quando o filme pode parecer passar um sentimento de culpa em relação aos atos dos personagens, em nenhum momento ele é maniqueísta a esse ponto.

Revelando-se um verdadeiro esteta em sua primeira incursão no gênero de ficção, Marcos Prado cria seqüências belas e memoráveis, como a cena da festa em que a câmera, em movimento lateral e se utilizando da mudança de foco, enquadra todos os personagens em meio à dança. O mesmo pode-se dizer das (diversas) cenas de sexo, que o diretor faz questão de mostrar de maneira, ao mesmo tempo, realista e poética. Além disso, a composição do cineasta ao retratar o efeito da droga no organismo da pessoa – intercalando ritmo acelerado com slow motion – apresenta-se como um dos melhores momentos da obra.

Assim como as músicas que os personagens ouvem, Paraísos Artificiais também tem seus altos e baixos e mudanças brutais de ritmo. Porém se esse estilo funciona bem nas raves e festas do gênero, nas telas do cinema ele acaba não tendo o resultado esperado. Mas vale a experiência.

(3/5)
Paraísos Artificiais
Brasil, 2012 – 96 min.
Direção: Marcos Prado. | Roteiro: Pablo Padilla, Cristiano Gualda e Marcos Prado.
Elenco: Nathalia Dill, Luca Bianchi, Lívia de Bueno, Bernardo Melo Barreto, César Cardadeiro.

  • andressa

    Acabei de ver o filme, achei que o diretor deveria ter ido mais fundo na composição de personagens, é tudo meio superficial. Mas confuso o filme não é. Os flashbacks são bem inseridos e o direitor deixa que o espectador tire suas própias conclusões.

  • redeatntes

    Eu achei o sexo muito explícito. Talvez nem seja isso, talvez seja o excesso de cenas de sexo.
    Achei que faltaram diálogos expressivos também. Aquelas filosofias baratas que o personagem do velho dizia, não supriram essa necessidade.

  • livia gontijo

    PARAISOS ARTIFICIAIS… filme brasileiro cujo resumo é SEXO, DROGAS E MUSICA ELETRONICA! Mas sinceramente prefiro definir como Putaria, Apologia às drogas e Raves… De zero à dez, minha nota é 2,5 pois a fotografia do filme é a única coisa que vale a pena! Ah, e com roteiro EXTREMAMENTE previsível, igual novelinha da globo!

    • luis

      putaria, drogas e raves? to dentro!

  • luiz

    Parece uma cópia do filme a outra história americana, mal feito é claro….

  • marcelo

    A única coisa plausível no filme é o título. Pq é o filme é bastante artificial e tem uma direção perdida e amadora. E o pior de tudo que pra fazer essa lástima audiovisual, os caras gastram mais de R$ 10 milhoes de dinheiro público.
    Quem quiser assisitr "flmes de verdade" sobre drogas, assita: trainspotting, requiem, drugstor cawboy, spun, Christiane F. entre outros…

  • Tiberio

    Quem é frequentador de rave adora esse filme porque consegue se identificar com cada um dos tres protagonistas e o velho também. A imitação da festa é muito real. Quem não gostou do filme é pq nunca foi pra uma Rave!!