Crítica: Anjos da Lei

Anjos da Lei, inspirado na série televisiva homônima estrelada por Johnny Depp no fim dos anos 1980, poderia ser mais munição para atestar a crise de criatividade do cinema norte-americano, uma vez que recicla o desgastado subgênero policial buddy cop, no equivalente juvenil a Máquina Mortífera, 48 Horas e A Hora do Rush, além de reviver embaraçosas situações normalmente presentes nos filmes de colegial. Existe, no entanto, um ar revigorante e rebelde na tendência de deturpar convenções que, embora não seja inédito (vem à cabeça o excelente “Chumbo Grosso”), é o bastante para divertir e justificar o sucesso deste azarão.

No roteiro escrito por Michael Bacall, Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum) são policiais recém admitidos na Academia para trabalhar na entediante ronda do parque. Após uma prisão frustrada, eles são enviados à unidade secreta na 21 Jump Street onde deverão, valendo-se de sua aparência jovial, se infiltrar numa escola local e desmantelar uma rede de tráfico de drogas. O colegial, porém, não é o mesmo de anos atrás quando Schmidt trajava roupas do Eminem e aparelhos nos dentes, e Jenko era o popular capitão do time de futebol americano. Povoado por jovens naturebas, ambientalistas e tolerantes liderados por Eric (Dave Franco, cópia carbono do irmão James de “127 Horas”), Jenko mal distingue outros grupos afora nerds e góticos, e a tentativa de parecer descolado saí pela culatra, o que abre espaço para que Schmidt assuma a improvável popularidade tão almejada quando era mais jovem.

Assim, é divertido observar a consciente inversão dos clichês colegiais, e os diretores Phil Lord e Chris Miller (Tá Chovendo Hambúrguer!) reconhecem quão inusitado soe ver Chaning Tatum aliando-se a estudantes de química ou Jonah Hill organizando uma bem-sucedida festa e conquistando o coração da espirituosa Molly (Brie Larson). Mais, o tom de paródia acomoda gags pertinentes como àquele sobre a idade da dupla (não é raro vermos atores de 25-30 anos interpretando estudantes) e o ácido comentário do sargento acerca da falta de originalidade presente na reciclagem da ideia de um programa de jovens agentes infiltrados.

Isso não exime a narrativa das burocráticas e pouco inventivas sequências de ação, centradas em perseguições de carros (e de limousines) e tiroteios desinteressantes. Entretanto, a censura elevada permite que os realizadores explorem conteúdos politicamente incorretos e escatológicos mantidos de fora na maioria das comédias. Assim, ofensas sexuais, palavrões, apologia a drogas e a violência são recursos bem empregados em algumas hilárias sequências.

Evitando ser meramente a transposição de um produto televisivo para o cinema (como foi S.W.A.T. e Esquadrão Classe A) ou um confortável filme de gênero, Anjos da Lei não confere apenas uma nova roupagem ao material original, como expande as possibilidades de novas aventuras da dupla. E, mesmo que esporadicamente reúna as características dos filmes que satiriza, como não admirar e se divertir com a ousadia, escatologia e inventividade desta ótima comédia?

(3/5)
Anjos da Lei (21 Jump Street)
Estados Unidos, 2012 – 109 min.
Direção: Phil Lord e Chris Miller. | Roteiro: Michael Bacall.
Elenco: Channing Tatum, Jonah Hill, Brie Larson, Dave Franco, Ice Cube, Rob Riggle.

  • Marcos

    não tenho certeza, mais acho que Johnny Depp faz uma participação, como policial veterano e … no final do filme.

    • Acertou Marcos. Johhny Depp era um dos policiais da série homônima na qual o filme foi inspirado. Ou seja, ele apenas encerrou o ciclo dele, por assim dizer.

    • Marcelo

      Sim era o Depp e o ator Peter DeLuise… que eram parceiros no seriado!
      O filme é muito divertido!
      Ps.: Eu adorava a série.

  • Engraçado como achei a comédia fraquíssima e entediante.
    Jonah Hill nao consegue ser engraçado.
    Mas sua crítica foi bem válida principalmente quando fala dos esteriótipos que eles conseguiram deixar tudo bem descontraído.
    Caso queira dar uma olhada, minha crítica: http://pipocatv.com.br/reviews/anjos-da-lei-comdi

  • ricardo

    A tiração de sarro dos clichês realmente é o ponto alto do filme. A tirada que deram naquela porcaria do Glee, foi muito boa.