Crítica: Área Q

Apesar de dirigido, escrito e co-produzido por brasileiros, esta desastrosa picaretagem não pode ser exclusivamente debitada na conta do cinema nacional. Pelo contrário, produção gringa de quinta categoria, algo que os créditos iniciais em inglês não deixam mentir, esta ficção-científica que “homenageia” as saudosas séries Além da Imaginação e Arquivo X encontrou nas terras tupiniquins o melancólico destino final de seu penoso amadorismo. Longe de qualquer apelo artístico ou comercial, Área Q satisfaz-se em explorar as locações cearenses, especificamente a cidade de Quixadá, e nomes da dramaturgia nacional para ludibriar os desavisados espectadores e, no caminho, obter alguns trocados. Enganação, isso sim!

Escrito por Gerson Sanginitto e Julia Câmara, o roteiro apresenta eventos ocorridos em 1979 quando o humilde campesino João Batista (Murilo Rosa), após mais um dia de labor, é supostamente abduzido por uma estranha força alienígena ou espírita, o que nunca fica muito bem esclarecido. Cerca de 30 anos depois, nos EUA, o jornalista Thomas Matthews (Isaiah Washigton), cujo filho Peter (Jordan Jones) está desaparecido, possivelmente raptado por um pervertido sexual, é enviado para o Brasil para redigir uma história sobre os misteriosos contatos alienígenas na região. Lá, ele conhece Valquíria (Tania Khalil), cética jornalista que enxerga nos fenômenos uma forma de publicidade para atrair turistas. Assim, entre aparições de João Batista nas matas nos arredores e a intensa luminosidade alaranjada que cobre a quente noite, Thomas descobrirá a resposta para o desaparecimento do filho nos eventos que testemunhará.

Bastam, porém, alguns minutos para o roteiro expor a sua estrutura esquemática na enfadonha abordagem de depoimentos, nos quais os desinteressantes habitantes da cidade narram paranormalidades concomitantemente à ilustração visual do que acabamos de ouvir. Também não tarda para Thomas aproveitar o recurso e confessar a história de sua vida à Valquíria ou, especialmente, na entrevista que inaugura a narrativa, onde ele esclarece, para outra ávida repórter, os eventos que se sucederam em Quixadá. Mas, pior é constatar que os “mistérios” revelados parecem extraídos de embaraçosos contos de extraterrestres, com direito a abduções, curas milagrosas, mensagens apocalípticas do colapso da humanidade e a intervenção de uma força maior para restaurar o equilíbrio da humanidade, algo jamais ilustrado.

Área Q assume uma posição religiosa nos expositivos diálogos “Tenha fé em Deus” ou “Deus esqueceu de mim” e nos símbolos e imagens de santos no design de produção enfatizando, inclusive, a superstição dos habitantes locais. Sequer é preciso ser estudioso da Bíblia para identificar à alusão ao mensageiro João Batista (o que o roteiro frisa certo momento, como se não estivesse bastante claro) e a referência do nome composto de Thomas Matthews (Tomé e Mateus), este um dos evangelistas e aquele o discípulo que precisava ver para crer. Assim, a narrativa equilibra-se no desconfortável binômio ficção e espiritismo, ignorando explicações a respeito das abduções, do tempo decorrido nelas e a presença de uma nave espacial de formato esférico. Seriam alienígenas espíritos prestes a reencarnar? O que sucedeu a João Batista após seu desaparecimento, já que os demais retornaram ao convívio da sociedade e ele permanece enclausurado na mata?

Respostas, aliás, que o diretor/roteirista, na falta de justificação plausível, esquiva-se de forma deselegante. Mais interessado em dirigir um autêntico filme B, ele abusa dos closes nos rostos assustados e olhos esbugalhados de Isaiah Washington e, em menor grau, Murilo Rosa, surpreendidos pelo vento, a movimentação e os sons diegéticos dos animais(!). Denunciando um penoso amadorismo na direção dos atores, nos enquadramentos, na mise-en-scène e no (mau) uso da canastrona trilha sonora de Perry La Marca, Sanginitto repetidamente constrange o espectador.

O longa ainda traz uma incômoda fotografia digital de grão grosso e cheia de ruídos (de Carina Sanginitto, esposa do diretor) e efeitos visuais ruins e embaraçosos.Como se não bastasse, Área Q tem a cara-de-pau de afirmar, em determinado momento, que “o tempo é apenas uma questão de percepção”. Uma pena, portanto, que para o público esta percepção será mais longa do que o suportável!

(1/5)
Area Q (Idem)
Estados Unidos / Brasil, 2011 – 108 min.
Direção: Gerson Sanginitto. | Roteiro: Julia Câmara e Gerson Sanginitto.
Elenco: Isaiah Washington, Murilo Rosa, Tânia Khalil, Jordan Jones, Ricardo Conti.

  • Nekomata

    Para quem não sabe, Quixadá eh a “Terra da Galinha choca” e já foi cenário para o filme dos Trapalhões: “O Cangaceiro trapalhão”.

  • Colen

    filme vergonhoso. Uma história boa, uma direção deprimente.

  • Não perco nem meu tempo pra ver o trailler, lamentável, filme brasileiro bom Alto da Compadecida, apenas até hoje que eu saiba.

  • Rômulo

    o verdadeiro significado desses filmes vocês não veem,
    Porque só querem saber de produção bem feita e outras bobeiras que só se acrescenta na ''estética'' dos longas, mas isso certamente não é tudo.
    vocês ainda não assistiram e já estão criticando
    árvore da vida é um filme maravilhoso , e ainda há muitos que pararam o filme na hora das imagens da natureza mostrando a beleza da criação olhem os filmes espiritualistas com outros olhos.fikadik assistam o mistério da rua sete e me falem o que vcs entenderam

  • yelsewsoares

    é uma mera e a história é muito confusa