Crítica: Poder Sem Limites


Chronicle

Imagine se, antes de vestir sua roupa aracnídea, Peter Parker buscasse nas bagunçadas gavetas do seu quarto uma câmera digital não apenas para descolar novas fotos do amigão da vizinhança para vender para o famigerado J. J. Jameson, mas também para documentar a descoberta de seus grandes poderes e todas as suas aventuras. Embora soe esdrúxula e pouco atraente, essa situação pode ser vislumbrada em Poder sem Limites, filme de herói realizado com linguagem de documentário, que conta a história de como o poder pode corromper aqueles não preparados para recebê-lo.

Escrito por Max Landis, o roteiro apresenta Andrew (Dane DeHaan, um jovem DiCaprio no melhor sentido), jovem retraído, filho de pai alcoolatra, e mãe portadora de câncer terminal com poucas semanas de vida. Sem uma amizade verdadeira e constantemente vítima de maus tratos na escola, Andrew é uma bomba-relógio ambulante. Certo dia, seu primo Matt (Alex Russel) e o candidato à presidência do conselho estudantil Steve (Michael B. Jordan) o convidam para filmar a descoberta de um artefato (alienígena?) enterrado no solo que, através de uma luz azul brilhante, concede ao grupo grandes poderes telecinéticos (ou seja, a habilidade de usar a mente para, dentre outras coisas, mover objetos).

Enquanto os amigos Matt e Steve têm afazeres diversos nas atribuladas vidas sociais, Andrew facilmente se torna o telepata mais forte, amplificando o seu poder no isolamento da sua casa. A telecinese dos jovens vai evoluindo e, o que começa com brincadeiras em uma loja de departamento, frustradas tentativas de voar e um jogo de futebol americano nas nuvens, descamba em violência, quando o jovem Andrew, transbordando rancor e ressentimento, retorna aos problemas do lar e decide vingar-se daqueles que lhe causaram os traumas escolares do bullying sofrido.

Usando o found footage para conferir verossimilhança aos eventos, o diretor Josh Trank é inteligente na primeira metade, escondendo Andrew atrás da câmera, resquício da timidez e invisibilidade essencial para sobreviver à escola. No entanto, o formato começa a se revelar incômodo e problemático quando a blogueira Casey (Ashley Hinshaw) surge em cena. Sem protagonizar uma única cena interessante, a personagem é um descarada desculpa para introduzir uma nova câmera em cena. Mais do que isso, sem entender exatamente o formato, Trank apresenta momentos estranhos e/ou embaraçosos, como a filmagem de uma conversa no telhado entre Andrew e Steve e, principalmente, a briga daquele com o pai.

Tendo no pano de fundo o imponente Obelisco Espacial de Seattle, o longa revela-se a agradável surpresa no concorrido subgênero de filmes de super-heróis, dialogando com este na original e satisfatória origem de um supervilão a qual, como nos melhores histórias, é intrinsecamente ligada a de seu antagonista. Uma pena, portanto, que um produto tão promissor tenha se rendido a um modismo supérfluo como o falso documentário. Quem sabe convencionalmente, Poder Sem Limites pudesse ter sido uma pequena obra-prima.

(4/5)
Poder Sem Limites (Chronicle)
Inglaterra/Estados Unidos, 2012 – 84 min.
Direção: Josh Trank. | Roteiro: Max Landis.
Elenco: Dane DeHaan, Alex Russel, Michael B. Jordan, Michael Kelly, Ashley Hinshaw, Anna Wood.