Crítica: Jogos Vorazes


Jogos Vorazes

Se há algumas décadas sedimentava-se um visionário e alarmante retrato da sociedade contemporânea com obras artísticas que previam e criticavam reality shows antes mesmo deles terem se espalhado como vírus em nossos lares, então Jogos Vorazes é a lúgubre constatação de que esse formato televisivo enraizou-se na cultura da nossa juventude. Assim, é uma grata surpresa o trabalho da escritora Suzanne Collins em desmascarar aquela mídia televisiva através de um diálogo franco e sem concessões com o seu público alvo, os adolescentes, que mesmo carecendo de originalidade no seu bojo, é um ensaio de crítica social misturado a satisfatório entretenimento.

Conceitualmente análogo ao japonês Batalha Real e apresentando o sadístico furor do ser humano em estar a par da violência a seu redor (como em Rollerball e O Sobrevivente), o roteiro escrito por Gary Ross, Billy Ray e a própria autora nos apresenta a um futuro distópico que, depois de destruído por uma guerra civil, formou uma nova nação denominada Panem, dividida em 12 distritos e a Capital. Para preservar a paz, a Capital organiza os jogos vorazes do título, um reality show que envia dois jovens de cada distrito (os Tributos) escolhidos aleatoriamente para sobreviver nas longínquas florestas e matar uns aos outros até que reste apenas um vencedor. Durante a loteria da 74ª edição, para evitar que sua irmã menor Prim Everdeen (Willow Shields) seja um dos Tributos, Katniss (Jennifer Lawrence) se voluntaria para representar o 12º distrito e disputar do lado Peeta Mellark (Josh Hutcherson) os jogos.

Dirigido pelo talentoso Gary Ross (A Vida em Preto e Branco e Seabiscuit – Alma de Vencedor), a narrativa foge dos ordeiros padrões de blockbusters ao investir em uma câmera trêmula e inquieta, transmitindo bem a insegurança e ameaça existente nos jogos. Dividido em dois momentos narrativos, antes e durante os jogos, os roteiristas apresentam a imperiosa necessidade de amealhar patrocinadores nos treinamentos e demonstrações, e a urgência de conquistar fãs e simpatizantes no show de entrevistas de Caeser Flickerman (Stanley Tucci, soberbo), e embora ambos não pareçam relevantes ou capazes de produzir efeitos decisivos e práticos no jogo de sobrevivência – as sequências de ação são confusas -, ao menos são divertidos para dissecar a bizarra e extravagante sociedade escondida detrás dos muros e edificações pomposas da Capital.

Os realizadores tiveram a ousadia em não esconder e minimizar a inerente violência que permeia a sobrevivência do mais forte. Das imagens de crianças e jovens cruelmente mortos à deformada face de uma jovem atacada por vespas anabolizadas, Ross e sua equipe, apesar de conscientes da classificação indicativa que o filme deva ter, confiam (e valorizam) no público mostrando uma visão crua e realista daquele universo ao invés de dar “tapinhas nos seus ombros” ou usar a narrativa como desculpa de um romance tolo. Esse realismo também se manifesta nas decisões de introduzir zumbidos (clichê, mas eficiente) depois da explosão de uma pilha de suprimento ou na câmera subjetiva e perda de foco em um ataque.

Logo, é decepcionante que os roteiristas incluam uma covarde mudança de regras no início do terceiro ato usada como desculpa para solidificar um romance (sim, o romance tolo que acabara de citar) e de abrir margens a um desfecho que flerta com Romeu & Julieta. Deste momento em diante, aliás, há uma vertiginosa queda em qualidade, com a obrigatoriedade de um vilão de confessar determinado assassinato, um deus ex machina, monstruosos animais e a aborrecida luta contra um poderoso vilão.

Contando com a bela e excelente atriz Jennifer Lawrence, sua Katniss é uma jovem corajosa e determinada, uma heroína de fato, que não hesita em se sacrificar pelos outros e demonstrar merecedora da nossa atenção irrestrita. Enquanto isso, Hutcherson, se esforça em tornar Peeta um sujeito digno do carinho de Katniss. Finalmente, nomes famosos como Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Wes Bentley, Donald Sutherland, Toby Jones e Woody Harrelson (mais contido que o de costume, apesar de interpretar um alcoólatra) agregam atuações dignas e dão mais valor a estreia desta franquia nos cinemas. Jogos Vorazes definitivamente tem tudo para conquistar o vazio deixado anualmente por um certo bruxo famoso. O primeiro bom passo já foi dado para isso!

(4/5)
Jogos Vorazes (The Hunger Games)
Estados Unidos, 2012 – 142 min.
Direção: Garry Ross. | Roteiro: Billy Ray, Gary Ross e Suzanne Collins.
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Stanley Tucci, Wes Bentley, Liam Hemsworth.

  • Um ótimo filme. Não consigo entender as críticas das pessoas que compartilharam aquela sessão comigo. Alguns diziam que era o pior filme que haviam visto, outros que não indicariam a ninguém, discordo completamente. Um ótimo filme no quesito crítica social (como vc destacou) e nada muito diferente do que vivemos hoje ou no passado. Esses jogos foram realidade no coliseu romano e a frieza e insensibilidade dos espectadores se fez existir naqueles momentos. As elites super-estilizas que assistem o BBB e não estão nem ai para a classe operária existem hoje. Jogos vorazes é apenas um registro histórico sobre as sociedades e o ser humano.

  • Nina

    Achei o filme ótimo. Infelizmente não li o livro, porem,creio que não deve ter deixado muito a desejar.
    No inicio achei que seria um filme clichê,por não saber da existência de sua obra, mas acabei me apaixonando.
    Agora quero ler o livro…
    E acho que nao estamos tão distantes de lançar um reallity assim.