Crítica: Histórias Cruzadas


The Historias Cruzadas

Grande sucesso de bilheteria nos EUA, The Help teve o infortúnio de receber o inapropriado título nacional de História Cruzadas. Baseado no best-seller homônimo da escritora Kathryn Stockett que fala sobre segregação racial na América sessentista, o nome original faz alusão a maneira como os brancos ricos enxergavam o “emprego” oferecido aos negros pobres da época – uma ajuda. Amálgama de A Cor Púrpura (1995) com Um Sonho Possível (2009), antes o filme se chamasse “A Reposta”, título que o livro de Stockett recebeu por aqui. Sob uma ótica diferente, faria muito mais sentido.

Ambientado na ultraconservadora cidade de Jackson, Mississippi, no auge do movimento pelos direitos dos negros nos beligerantes anos 1960, a história gira em torno da jovem branca Skeeter Phelan (Emma Stone), jornalista recém formada, disposta a ter uma carreira de escritora e ser independente (ao contrário das demais jovens de sua idade que, se não estão casadas, estão a procura de um marido rico). Embalada pelas lembranças afetuosas da babá negra que a criou, ela decide dar voz as mulheres “de cor” que deixaram de lado suas vidas para trabalhar como empregadas cuidando de crianças da elite caucasiana.

Inicialmente contando apenas com o apoio de duas domésticas – visto que esse tipo de colaboração era ilegal sob a legislação do Estado -, Skeeter aos poucos vai ganhando confiança da comunidade negra feminina, que enxerga na garota branca idealista uma oportunidade de tornar público as humilhações revoltantes a que são submetidas. E ao desafiar as convenções sociais escrevendo seu livro sobre o ponto de vista das serviçais, Skeeter desencadeira uma revolução de proporções não imaginadas.

Dirigido pelo inexperiente Tate Taylor, The Help foi indicado a quatro Oscars: Melhor Filme, Melhor Atriz (Viola Davis) e duas indicações para Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer). Davis está notável como a sofrida Aibileen e Chastain bem à vontade no papel da ingênua e desmiolada Celia Foote, mas é Spencer quem rouba o filme com a sua Minny Jackson. Responsável pelos momentos mais hilariantes da fita e tendo já recebido o Globo de Ouro por seu personagem, dificilmente alguma colega lhe tira o prêmio. Mais que merecido, diga-se de passagem.

Longe de funcionar como registro histórico de um dos períodos mais intensos por qual passou a sociedade norte-americana, Histórias Cruzadas é um conto moral disfarçado de entretenimento. Temas importantes da época são contextualizados en passant – a Ku Klux Klan, o fim da era Kennedy, Martin Luther King, os panteras negras, a revolução feminista -, o que não é de estranhar vindo de uma produção Disney. Mesmo assim, diverte e comove, muito mais pelas inspiradas performances do que pelo roteiro raso, maniqueísta e agridoce.

(3/5)
Histórias Cruzadas (The Help)
Estados Unidos, 2011 – 140 min.
Direção e Roteiro: Tate Taylor.
Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain.

  • Geraldo

    Histórias Cruzadas serve sim como um documento histórico, pois tudo o que acontece, seja pelos vencedores ou vencidos, histórias contadas através de geraçoes, sem necessariamente possuir um documento oficial, é de interesse histórico. O filme mostra com muita sutileza o atrito que existia entre as empregadas e suas patroas, a força de uma ideologia para manter o status quo de uma sociedade. O tom de verdade está em praticamente todas as cenas, até da criança(muito bem realizada). todos os temas abordados; uma mulher nao poder criar seu próprio filho para se dedicar a outro, a questao dos banheiros, o sentimento de medo e revolta por ter que se submeter a outro ser humano por causa da cor, até a questao em que uma pessoa tem que abraçar uma ideologia e sofrer com isso até o fim, sao questoes levantadas no filme que nos deixa um pouco mais informados e podemos sentir "um pouco" os ares daquela época.

  • Mesmo que o filme não seja baseado em uma história real, vale a pena assistí-lo. Como Geraldo disse acima, tem pontos históricos que podem ter acontecido ou aconteceram de forma pior. Infelizmente o racismo é algo que ainda possui certa intensidade nessa mesma região onde o filme é rodado (Mississipi). Enfim, o filme é brilhante, drama que consegue emocionar e falar sobre um tema importante. Recomendo a todos!

  • phrrrr

    Atraves da "comedia" muitas mensagens podem ser passadas. É um filme com uma abordagem mais leve, que demosntra como as coisas eram na pratica, no cotidiano. Sem discursos inflamados em praça publica e etc. Acho valido como documento historico sim. De uma perspectiva diferente, mais no dia a dia e nao no "campo de batalha" propriamente dito. Acho interessante um filme mostrar como coisas absurdas passavam como normais aos olhos de muitos, e ainda hoje em nossa propria soiciedade passam como 'normais', pois nao é normal alguem morar numa favela sem ter acesso ao básico, enquanto voce liga a TV e ve "MUlheres Ricas" jogando dinheiro pela janela.