Crítica: A Guerra Está Declarada

A Guerra está Declarada

A Guerra está Declarada, escolhido pela França para representar o país no Oscar 2012, é um filme que caminha no limiar do documentário e da ficção com uma fluência jamais antes vista no cinema. Isto porque a diretora, roteirista e atriz Valérie Donzelli e seu ex-namorado Jérémie Elkhaim, co-roteirista e também ator, se inspiraram na vida do filho Gabriel que, ainda bebê, foi diagnosticado com um agressivo carcinoma cerebral e precisou submeter-se a uma torturante guerra contra o câncer.

Vencida a doença, Valérie e Jérémie corajosamente revisitaram a angústia vivenciada naqueles dias negros e desenvolveram a partir de suas experiências um retrato otimista da batalha travada alguns anos antes sem nunca tropeçar na imoralidade de explorá-la despudoramente. Pelo contrário, além de reacender a esperança no coração de muitos que a perderam definitivamente, os realizadores apropridamente agradecem aos médicos e ao corpo hospitalar de Marselha e Paris convidando-os a reviver na narrativa os mesmos papéis que desempenham diariamente no sistema hospital público francês.

Tomando por base as principais características do cinema francês, especialmente o naturalismo desapegado do pieguismo e maniqueísmo, o terrível câncer é imediatamente confrontado desde a primeira cena, a qual encontra Juliette (Donzelli), acompanhando seu filho Adam (César Desseix) na realização de uma desesperadora cintilografia. Rapidamente, o incômodo barulho provocado pela máquina confunde-se com os sons de uma rave e, em um oportuno flashback, descobrimos como Juliette e Romeo (Elkhaim) se conheceram. Nesse momento, o roteiro assume um tom fantasioso e brincalhão, mas não menos trágico, da popular história de amor shakespeareana, preocupando-se apenas o necessário com a doença e dedicando-se à história de amor bem mais do que a dor que a acompanha.

Inevitavelmente, o casal agradável e, na maioria das vezes, maduro e sereno pode ser vítima de acusações de auto-indulgência, por interpretar versões próximas de si mesmos. Apesar das controvérsias a respeito, é indiscutível a coragem e a química exibida pelo ex-casal em cena, evitando apelar para o sentimentalismo óbvio (como na icônica sequência em que abraçados em uma cama, ambos revelam seus medos, por mais preconceituosos que estes sejam). Sem ignorar pequenos detalhes da personalidade de seus personagens Valérie Donzelli também acomoda muito bem o amadorismo dos médicos e profissionais de sáude não-atores.

Documentário inusitado ou ficção realista, a verdade é que A Guerra está Declarada é um grande filme. Ao encapsular uma narrativa inegavelmente dolorosa em contornos coloridos, suaves e esperançosos, o casal converteu o costumeiramente esquemático subgênero de “histórias de doença” em uma bela história de amor cujo futuro, apesar dos parcalços da vida registrados na narração agridoce nos minutos finais, encontra paz na amálgama da realidade com a fantasia nas areais de uma praia.

(4/5)
A Guerra Está Declarada (La Guerre Est Déclarée)
França, 2011 – 100 min.
Direção: Valérie Donzelli. | Roteiro: Jérémie Elkhaim e Valérie Donzelli.
Elenco: Valérie Donzelli, Jérémie Elkhaim, César Desseix, Gabriel Elkhaim, Michèle Moretti.