Crítica: Mary & Max – Uma Amizade Diferente

Mary e Max

Muito diferente das obras produzidas por Disney, Pixar ou DreamWorks, Mary & Max é um trabalho brilhante realizado pelo veterano australiano em  animações e premiadíssimo Adam Elliot (vencedor do Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação por Harvie Krumpet em 2004), utilizando a técnica de stop motion com bonecos e objetos feitos de argila; no estilo “A Fuga das Galinhas”.

A Mary do título (voz de Bethany Whitmore quando criança e Toni Collette na fase adulta) é uma garotinha australiana que vive sofrendo com a ausência do pai e os excessos da mãe alcoólatra. Max (voz de Philip Seymour Hoffman) é um judeu novaiorquino quarentão que possui vida anti-social, sofre de retardo mental e freqüenta os vigilantes do peso. Nenhum dos dois se encaixa muito bem no ambiente em que vivem, são solitários e o mundo lhes parece intrigante e incompreensível. Quando começam a trocar correspondências ao acaso (o filme se passa num período pré-internet), uma bela amizade à distância se inicia.

Essa relação vai se fortalecendo ao longo dos anos e se torna uma grande jornada de compreensão, um do outro, de si mesmos, da vida e do mundo que os cerca, mesmo que distorcido por suas visões absolutamente particulares das coisas. Profundo e ao mesmo tempo divertido, engraçado e simultaneamente trágico, Mary & Max sabe mesclar de forma perfeita um roteiro adulto com personagens marcantes.

O diretor optou por uma narrativa interrompida em “parenteses”. Há todo instante o longa abre um para definir características, emoções e lembranças dos protagonistas envolvendo muitos outros personagens igualmente peculiares, entrelaçando a história e amarrando as pontas. Através da sensibilidade de Elliot em criar cada um destes parenteses somos imersos em reflexões sobre o quanto o cotidiano pode ser incrível quando se dá atenção aos detalhes.

Além do roteiro, o visual e a música são outros pontos positivos. A direção de arte é bela e audaciosa (a Austrália é a terra do sépia; os Estados Unidos, do preto-e-branco) e a trilha do maestro Dale Cornelius marcante e envolvente. Dois grandes trabalhos que imprimem o tom exato de lirismo conforme a história vai pedindo.

Crianças e jovens podem assistir ao filme – mas dificilmente conseguirão entender toda a gama de ironias da história. Mary & Max navega por temas nunca antes abordados em produções do gênero, promovendo discussões polêmicas. Solidão, alcoolismo, insegurança, fobias, distúrbios mentais, abandono do lar, traumas, suicídio e obesidade fazem parte do repertório desta animação. Assuntos muito pesados, certamente. Mas que tornam a obra ainda mais realista e interessante, explorando o componente humano como poucos filmes com atores de carne e osso foram capazes.

(4/5)
Mary & Maxy – Uma Amizade Diferente (Mary & Max)
Austrália, 2009 – 80 min.
Direção e Roteiro: Adam Elliot.
Elenco: Toni Collete, Philip Seymour Hoffman, Bethany Whitmore, Eric Bana, Barry Humphries.

  • Renata Salge

    O filme mary and max, ao meu ver, foi a melhor surpresa dos últimos tempos. Uma forma brilhante de trabalhar as diversas angústias humanas através da animação. Além, é claro, da graciosa história de amizade que é apresentada. Simplesmente maravilhoso, parabéns pela crítica.

  • Hyezza

    Meu Deus! Corrija isso, Max não sofre de retardo mental e sim tem a Síndrome de Asperger. Ele é autista e não doente mental.

    • Desculpe a ignorância, Hyezza.
      Grato pela correção.