Crítica: Vício Frenético

Vício Frenético

O Sacrifício, Motoqueiro Fantasma, O Vidente, Perigo em Bangkok… Nicolas Cage estava afundando num mar de lama. Felizmente – para nós e para ele -, surgiu a oportunidade de estrelar esta refilmagem de Vício Frenético, longa policial de 1992, dirigido por Abel Ferrara. Desde “Despedida em Las Vegas” que eu não via o sujeito se entregar a um papel de corpo e alma. Talvez o diretor alemão Werner Herzog saiba onde fica o switch de liga/desliga no cérebro do ator.

Se você está esperando um policial convencional, esqueça. O filme é estilizado, opera fora da faixa do realismo e, provavelmente, não agradará aos fãs do cinemão hollywoodiano comercial. Vicio Frenético tem a aparência maquiada de um thriller, mas lida com material bem mais complexo e inflamável: a compulsão, os instintos incontroláveis que levam um ser humano a pisotear seus próprios códigos de conduta para alcançar objetivos nem sempre mensuráveis, a velha pergunta se “o ambiente faz o homem”. Herzog é um especialista no tema. Quase toda sua obra de ficção (Aguirre – A Cólera dos Deuses, de 1972, e Fitzcarraldo, de 1982, por exemplo) e boa parte de sua produção documental (O Homem-Urso, de 2005 e Encounters At The End of the World, de 2008) consiste de variações do mesmo tópico.

A trama agora se passa na região de Nova Orleans (o original era em Nova York) e tem início logo após a passagem do furacão Katrina. É neste cenário de destruição que o policial Terence McDonagh (Cage) mergulha numa penitenciária inundada, para salvar a vida de um detento que está prestes a se afogar. O ato heroico lhe rende uma promoção a tenente e uma contusão na coluna que o obriga a passar o resto da vida tomando analgésicos para aguentar a dor. Um ano depois, está dependente de Vicodin e cocaína, mas continua trabalhando em nome da lei.

Antes um bom tira, Terence é agora um viciado em drogas, um policial inescrupuloso e um apostador sem limites. Mesmo em meio a desordem, consegue manter seu prestígio de policial eficiente, graças ao seu método de trabalho por vezes anti-ético e sua capacidade de entender a mente de traficantes e drogados assim como ele.  Quando uma família de imigrantes senegaleses é assassinada, ele é nomeado para o caso, e sai à procura do assassino. Mas seu envolvimento em atividades ilegais ameaça colocar sua missão em risco.

Bad Lieutenant: Port Of Call New Orleans é um policial de grande qualidade que não apela em momento algum para clichês do gênero como tiroteios ou soluções impossíveis. Aqui, o ato de extorquir, traficar, roubar, ameaçar e eventualmente acender um cachimbo com pedra de crack durante uma abordagem a um suspeito são ações degradantes, mas que, com um golpe de sorte, conduz o detetive rumo ao sucesso.

A forma como Cage sinaliza o arco dramático do personagem através da expressão corporal – caminhando progressivamente mais e mais curvado – é digna de nota. Mas os louros da glória não vão apenas ele. A produção conta com um capricho exemplar em todos os setores, principalmente, o ótimo roteiro escrito por William M. Finkelstein, mais conhecido por seus trabalhos na TV americana em séries como Law & Order; e o diretor Herzog que trabalhou bem com sua câmera, ora nas tomadas que representam delírios do detetive McDonagh, ora nos ótimos enquadramentos em close selecionados.

Detalhe: Abel Ferrara, quando soube que um remake de sua obra estava em andamento, desejou que todos os envolvidos queimassem no inferno. Bem, Herzog já esteve lá quando filmou Aguirre e quanto a Cage… acho que Abel não assistiu ao Motoqueiro Fantasma!

(4/5)
Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans)
Estados Unidos, 2009 – 122 min.
Direção: Werner Herzog. Roteiro: William M. Finkelstein.
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Brad Douriff, Jennifer Coolidge, Fairuza Balk.