Crítica: Amor Sem Escalas


Amor Sem Escalas

Não se deixe enganar pelo infeliz título nacional, Amor Sem Escalas não é uma comédia romântica. Adaptação para as telas do livro homônimo de Walter Kirn, escrito em 2001, o filme é uma bomba reflexiva e retrata uma realidade cada vez mais praticada nestes tempos de exigências e aspirações profissionais: de solidão, relacionamentos superficiais e ausência de raízes.

Ryan Bingham (George Clooney) é um Conselheiro de Transições de Carreira, sujeito que trabalha para uma empresa cujo serviço consiste em viajar pelo país demitindo funcionários em nome de outras companhias sem coragem para fazê-lo. Ele é o cara que vai chegar sem ser anunciado, se sentar numa sala reservada e começar a chamar as pessoas que serão dispensadas. As reações, claro, vão do choro ao desespero, passando por gritarias e ameaças de morte.

Em suas poucas horas vagas, Bingham dá palestras motivacionais fazendo apologia ao desapego de tudo que, segundo ele, são “amarras invisíveis” que prendem o ser humano e o impedem de evoluir. Entre as coisas que julga descartáveis estão nossos parentes, relacionamentos e memórias afetivas. O trabalho obriga Ryan a praticamente morar em hotéis e estar cada dia em um lugar diferente, coisa que o faz com grande prazer. O unico objetivo de sua vida é conseguir acumular 10 milhões de milhas e, assim, ser a sétima pessoa no mundo a obter um cartão ultra vip.

A flying-way-of-life do protagonista começa a mudar de rumo quando ele conhece duas mulheres. A primeira, Alex (Vera Farmiga), é uma versão de saias do próprio Bingham, mulher de negócios independente, desprendida, sexy e também adepta a relacionamentos efêmeros que duram até a hora da decolagem do próximo avião. A segunda é Natalie (Anna Kendrick), uma jovem recém-saída da faculdade que criou um sistema de videoconferência que possibilita demitir pessoas à distância. Uma vez provado que Natalie ainda não está totalmente preparada, Ryan ganha a missão de levá-la a tira-colo e ensinar-lhe seu ofício. Convivendo com as duas, ele terá a oportunidade de rever seus valores e sua inaptidão para relações interpessoais.

A escolha de George Clooney para viver Ryan Bingham caiu como uma luva. O ator é um solteirão convicto, apostou com as colegas de profissão Michelle Pffeifer e Julia Roberts que não se casaria antes dos 50 anos. Clooney empreende charme, fragilidade e sarcasmo ao personagem. O sujeito é a personificação da vida atribulada, a corrida contra o relógio, a vontade de se estar em vários lugares e fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

O diretor canadense Jason Reitman (Obrigado por Fumar, Juno) tem uma visão particular de mundo e se esforça para fazer algo autoral – sem ser transgressor – e ao mesmo tempo comercial. Talvez por isso, Amor Sem Escalas tenha um tom doce-amargo. Reitman não chega a condenar os ideais contemporâneos mas permite que o espectador julgue se suas prioridades estão satisfatoriamente organizadas, abrindo discussões sobre o estilo de vida que buscamos e do que estamos abdicando para tê-lo.

(4/5)
Amor Sem Escalas (Up In The Air)
Estados Unidos, 2009 – 109 min.
Direção: Jason Reitman. | Roteiro: Jason Reitman e Sheldon Turner.
Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman, J.K. Simmons.