Crítica: Bastardos Inglórios


Bastardos Inglórios

Tarantino é o cara. Em tudo que dirige, é possível ver sua marca indelével. Admirador de vários gêneros, este ex-balconista de locadora é capaz de revisitar os filmes de gângsteres, como em “Cães de Aluguel”, ou as produções de “Blackploitation”, vide “Jackie Brown”, até o cinema asiático de artes marciais, explorado em “Kill Bill”. Há quem torça o nariz para um cineasta que vive de referências, mas para mim, volto a repetir, ele é o cara.

Em Bastardos Inglórios, Quentin decidiu prestar homenagem aos grandes filmes de guerra. A ideia para o longa surgiu de um longa do italiano Enzo Castellari, de 1978, chamado em inglês de “The Inglorious Bastards (no Brasil, “Assalto ao Trem Blindado”). Só que ao invés de usar o mesmo título, Tarantino propositalmente grafou errado o nome do seu, transformando-o em Inglourious Basterds. A trama também é bastante parecida, apesar de não se tratar de um remake propriamente dito. Para compensar a referência, O diretor convidou o colega Castellari para uma pequena participação.

Os bastardos do título são um pelotão de “Rambos judeus” liderados por um caricato Brad Pitt, encarregados de atacar e escalpelar todos os nazistas que encontrar pela frente, para ensinar ao inimigo “um pouco de humanidade”. Quando surge a oportunidade de explodir um cinema na França lotado com a mais alta cúpula do Terceiro Reich – inclusive o próprio Adolf Hitler – , o grupo une-se a agentes secretos britânicos para executar a missão.

Apesar de Pitt ser a estrela do filme, por óbvios motivos mercadológicos, é no elenco internacional que estão os verdadeiros achados da obra. Christoph Waltz no papel do coronel alemão Hanz “O Caçador de Judeus” Landa dá um show de interpretação. Este austríaco de 55 anos foi merecidamente agraciado com o prêmio de Melhor Ator em Cannes e será certamente indicado ao Oscar. A francesa Mélanie Laurent é outro grande destaque. Impossível não se apaixonar por sua personagem Shosanna, uma judia que consegue escapar da morte e planeja uma vingança contra os nazistas.

Assim como nas demais obras tarantinescas, a cereja do bolo são os diálogos. Quem está esperando uma fita repleta de ação, pode esquecer. Inteligente, ainda que mantido rigorosamente simples, o roteiro investe nas falas e na construção dos personagens. Os idiomas e sotaques são fidedignos e o elenco formado por atores de várias nacionalidades corroboram para dar “veracidade” a trama, mesmo tratando-se de puro entretenimento.

Se gostei tanto, por que não 10? Bem, algumas licenças poético-históricas perpetradas por Tarantino me incomodaram. O sujeito teve culhões para modificar o rumo da História, mas essa atitude inconsequente destemperou o longa justamente em seu clímax. Ainda assim, não deixa de ser um dos melhores filmes de guerra dos últimos tempos.

(4.5/5)
Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds)
Estados Unidos, 2009 – 153 min.
Direção e Roteiro: Quentin Tarantino.
Elenco: Brad Pitt, Christoph Waltz, Diane Krueger, Eli Roth, Mélanie Laurent, Michael Fassbender.

  • Flávia

    Eu gostei muito de sua crítica do filme. A atuação de
    Christoph Waltz foi extremamente excelente.

    Mas eu não acredito que a mudança histórica tenha atrapalhado algo no filme. Tarantino é assim… inovador. Ele não se propos fazer uma interpretação histórica, mas sim uma intervenção na história.

    Enfim, continuo gostando da sua crítica.

    • Obrigado, Flávia! Sou fã de carteirinha do Tarantino e só mesmo o final do filme não me agradou. Se bem que, exceto Quentin, ninguem mais teria "autoridade" para mudar o curso da História.

  • Alfredo

    Achei sua crítica interessante. Concordo com tudo que disse.

    E com certeza essa é uma obra de Tarantino, magnífico como sempre, meu diretor preferido.

    O papel de Waltz merece um Oscar.

  • Afonso

    Não entendo a nota do filme e a supervalorização do Tarantino.
    Trata-se de um filme que subverte a verdade histórica e nada tem
    de extraordinário.
    Facilmente esquecível.