Crítica: Encarnação do Demônio


Este fim de semana pude finalmente assistir Encarnação do Demônio, a nova “obra-prima” de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Depois de escarafunchar o dvd todo, não sei dizer o que é mais impactante: o filme ou os extras.

O filme: Para quem não sabe, Encarnação é a última parte da trilogia iniciada em 1964 com “A Meia-Noite Levarei Tua Alma” e seguida de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1968). Quarenta anos depois e alguns quilos a mais, o coveiro mais famoso do Brasil (que Amaral que nada!) está de volta e não desistiu da missão de encontrar uma mulher à sua altura para gerar o “filho perfeito”.

A fita começa com Josefel Zanatás (Zé do Caixão) sendo libertado do cárcere onde se encontrava. Ao chegar na favela onde vai morar, se comove com o assassinato de duas crianças pela policia. Calma! O sujeito não virou bonzinho. Demora pouco para ele começar uma carnificina sem limites, fazendo a série “Jogos Mortais” parecer um passeio ao parque. Destaques para as cenas onde Zé arranca uma mulher nua de dentro de um porco, enfia um rato vivo na boceta de outra e transa (vestido) sob uma chuva de sangue num terreiro de macumba com um jovem que acabou de saber que ele degolou suas tias.

O roteiro original foi prejudicado pela morte inesperada de Jece Valadão (interpretando um policial caolho sedento de vingança pelo olho furado) que não terminou todas as cenas. Para sanar a ausência do cafajeste-mor do Brasil, o roteirista Dennison Ramalho inseriu um irmão do personagem de Jece (Adriano Stuart) na história. Mesmo assim, é uma experiência única que merece ser conferida, principalmente por se tratar de um produto genuinamente made in Brazil.

Os extras: Ver Mojica despir-se do ego e afirmar para as câmeras que troca o “L” pelo “R” e não pluraliza certas palavras é hilário. Logo em seguida, vemos o diretor/ator dar um piti no set depois de ser interrompido por duas vezes para repetir takes onde atropelou o português (“Eu tô concentrado na cena, será que esse ‘S’ vai fazer falta?”) O recrutamento e treinamento das atrizes são momentos angustiantes. As moçoilas são obrigadas a conviver com baratas, ratos e aranhas (bichinhos queridos de Mojica, que trata as peludas por nome próprio) e muitas desistiram. A atriz costurada dentro do porco teve uma crise de choro durante as filmagens.

A construção dos flashbacks é um capítulo à parte (sem trocadilhos). Descobrimos que Mojica foi obrigado a alterar o final de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” por causa da censura que ameaçou proibir o filme, caso Zé do Caixão não se “arrependesse” no fim da fita. A cena foi refeita (em preto e branco) e modificada. Também foi incluído o momento em que o coveiro fura o olho do policial (vivido no presente por Jece Valadão). Para isso, trouxeram dos EUA o jovem Raymond Castille, para interpretar o Zé do Caixão jovem. O sujeito, fã de Coffin Joe, foi descoberto na internet.

Infelizmente o público não compareceu nos cinemas para prestigiar o filme. Agora em DVD, talvez Encarnação do Demônio tenha a atenção que merece.

  • Eduardo

    Não pude ver esse mais novo filme do Mojica. Mas, com certeza, vou arrumar o dvd para assistir.

    O cara fez muito pelo horror aqui no Brasil e, sem sobra de dúvidas, merece atenção! Uma coisa de que me arrependo muito, é de não ter ido ao cinema assistir a esse filme. Mas fazer o que, não deu pra mim, agora é comprar o dvd e desfrutar desse filme tão comentado.

  • Leandro

    Eu assisti e recomendo! Como o autor do post disse, algumas cenas deixam Jogos Mortais no chinelo!
    Destaque para a tortura dos policiais!